Um retrato da sociedade infantilizada pelo Estado

Em “O Estado Babá”, David Harsanyi detalha a diminuição dos valores individuais frente a um Estado que cada vez mais busca pautar a ação da sociedade em nome de propósitos nobres

Em agosto, entra em vigor, na cidade de Filadélfia, nos EUA, uma lei que pretende multar pessoas que enviarem mensagens eletrônicas de celular enquanto estiverem andando pelas vias públicas. Feita com o bom propósito de conscientizar o cidadão e evitar acidentes, a lei determina que o infrator que for flagrado pela polícia mandando SMS será multado em US$ 120,00. Tal lei, se tivesse sido escrita há mais tempo, certamente seria digna de figurar nas páginas de “O Estado Babá”, livro que o analista David Harsanyi escreveu para analisar “como radicais, bons samaritanos, moralistas e outros burocratas cabeças-duras tentam infantilizar a sociedade”.

Observando as leis protetivas que são propostas por um grupo de pessoas a quem o autor identifica como adeptos da ideologia do “babysitterismo”, um método de controle social que tira dos indivíduos a liberdade de escolher e impõe a sociedade, em nome do bem comum, uma verdadeira ditadura de costumes, Harsanyi estabelece de modo escancarado o que está acontecendo com os EUA, um país que foi fundado seguindo profundos preceitos de liberdade, mas que atualmente encontra-se pautado por pessoas que, por mais que sejam sérias e preocupadas com questões importantes, acabam, por algumas de suas ideias, apenas restringindo as liberdades individuais dos outros.

Da quantidade de água que deve conter uma tigela para cachorro, passando por impostos sobre biscoitos, restrição a restaurantes que servem comidas prejudiciais à saúde, até as já notórias proibições de fumar em locais fechados, comercializar sacolas plásticas ou até mesmo beber em passeios públicos, tudo é devidamente abordado em O Estado Babá. O que se tem, ao longo do livro, é um panorama generalizado dos níveis já psicóticos de intervenção estatal sobre a vida das pessoas. O direito de escolha, a liberdade, o autocontrole estabelecido pelo indivíduo, tudo é pulverizado ante uma necessidade bondosa do Estado de intervir em questões que até outrora eram de exclusivo interesse particular.

Em que pese o autor centrar a obra quase que exclusivamente nos EUA, o livro serve adequadamente para retratar a realidade brasileira. O babysitterismo é uma ideologia internacionalista que não reconhece Estados Nacionais e preceitua comportamentos mundiais padronizados. Leis intervencionistas que atualmente afetam os EUA e a Europa não demoram a encontrar suas similares aqui. O contrário ocorre da mesma forma. Há um perpétuo intercâmbio de ideias “bondosas” e restritivas vindas das mais variadas partes do globo.

A sociedade brasileira, já há bastante tempo, vem sendo pautada da mesma forma que a americana. Com o agravante de aqui haver uma tradição estatólatra que dá aos intervencionistas uma força infinitamente ampliada. Se lá, onde o culto ao indivíduo dá combate à ideia de que o Estado é um ente superior de razão, aqui onde os bem pensantes normatizaram que prezar pelo bem coletivo é o ideal, torna a condição do indivíduo como dono de seu nariz uma ideia em extinção.

Poucos livros conseguem compreender a sociedade no momento em que são publicados. É o caso de “O Estado Babá”. O babysitterismo se encontra em seu apogeu e a leitura da obra de Harsanyi torna-se indispensável não só para entender as origens e alcance dessas arbitrariedades travestidas de gestos de bondade para com o semelhante, como forma de defesa dos indivíduos que se recusam a assumir a condição de meros tutelados do Estado.

Publicado originalmente na edição impressa do jornal Informante

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